Viajar ao Egito agora: dá pé?

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 Quando eu comentei no twitter que tinha decidido ir para o Egito agora, muita gente me enviou replies e DMs dizendo que eu estava “louca”, que não aceitariam ir “nem de graça”, que era “muito perigoso”, que o país estava “em guerra”.  Amigos e familiares também ficaram super apreensivos e me encheram de mensagens preocupadas, inclusive durante os primeiros dias da viagem.

 Adiei minha ida ao Egito por muitos anos porque, face aos relatos tristes de algumas solo travelers que já tinha ouvido e lido, não queria ir sozinha; e nesses anos todos ninguém se animou muito a ir comigo. A decisão de ir agora teve um motivo determinante: os preços.  Com a crise generalizada no turismo nacional frente à bad reputation que a mídia está dando ao Egito ultimamente, os preços ali simplesmente despencaram: o que já era barato ficou muito barato e os hotelaços de luxo e os melhores cruzeiros pelo Nilo baixaram seus preços a valores antes inimagináveis (só a parte aérea que continua carinha, sobretudo se comprada de última hora, como foi a minha).

 Minha maior preocupação em ir agora era a questão de ser uma mulher viajando sozinha por lá e não a famigerada primavera árabe.  Quanto às manifestações político-sociais na cidade, é claro que eu pesquisei muito e troquei zilhões de emails sobre o assunto com a operadora local e até com o hotel em Cairo, que pesquisa nunca é demais. Todos me tranquilizaram muito, explicando em detalhes porque achavam que os piores dias tinham ficado para trás e que a situação atual não afetava o turista (acho que poderíamos fazer aqui um paralelo com a má reputação que o Rio de Janeiro vira e mexe recebe da mídia estrangeira, mas isso seria assunto para outro post ;D).

  Então, como contei no post do Saia pelo Mundo, vim para cá numa viagem da excelente AbercrombieKent, a maior operadora de turismo local e que me foi muitíssimo bem recomendada (tenho amigos que já viajaram com eles tanto no Egito quanto em outras partes do mundo) para estar de alguma maneira bem acompanhada durante a maior parte da viagem. E deu certo, muito certo. A viagem foi linda, conheci gente bacana o tempo inteiro, meu cruzeiro pelo Nilo foi muito curto mas maravilhoso, me apaixonei pelo caos vibrante do Cairo. Estou deixando o país agora e já estou com saudades.

Se o Cairo está perigoso? Não está. É claro que eu não dei bobeira zanzando sozinha por lugares ermos. Mas passei pela praça Tahrir, fui ao maravilhoso Museu ali mesmo, fiquei hospedada na mesma região e até saí sozinha à noite (sabendo exatamente onde ia, é claro, e com as devidas precauções). Em todos os dias que fiquei na cidade, não vi nem sinal de manifestações – elas acontecem agora de maneira mezzo organizada às sextas-feiras na praça, e sexta cedinho eu já estava a caminho do aeroporto para pegar meu voo a Aswan. O único incômodo que senti na cidade foi o trânsito maluco e sempre congestionando – muito semelhante ao de São Paulo, btw 😀  

 Ao sul do país, durante o cruzeiro, a gente só se dá conta da crise politica em seu triste efeito econômico: o desespero dos vendedores, as atrações/locais/barcos todos com pouquíssimos turistas (meu barco tinha apenas dezesseis passageiros, dá pra imaginar?), várias lojas fechadas, os animais esqueléticos.

 O que acontece ali agora é que todo mundo fala de política o tempo todo; “Mubarak” ainda é pronunciado com a voz meio baixa, mas “revolução”, “mudanças”, “novo governo” e palavras afins estão no cardápio o tempo todo nos restaurantes, nos hotéis, nas rodas de amigos e até nas conversas dos guias com seus turistas (me questionaram várias vezes, em vários locais, sobre o que eu pensava da situação atual do Egito, como avaliava a revolução, o que via para o futuro etc). 

 Para as mulheres, o assédio é grande, incisivo e constante como na maioria dos países árabes; a gente sente menos no Cairo e muito mais conforme vai entrando em cidades menores, mais interioranas (farei outros posts especificamente sobre isso, que várias meninas já andaram pedindo). Mas tomando as devidas precauções foi tudo muito bem, obrigada, em todos os lugares – às vezes eles são tão bem humorados que a gente até ri ao invés de se sentir ofendida. 

 A melhor parte de estar com uma operadora foi essa: como me sentia segura, pude ser eu mesma, despreocupadamente, e conversar, rir e conhecer a parte festeira, amistosa e divertida dos egípcios – que, por sinal, adoram o Brasil e os brasileiros, do “Ronaldo” ao “Lula da Silva”.  Assim entendi bem os limites que deveriam ser estabelecidos e pude aproveitar minha viagem, sem estresse, também nas vezes que saí sozinha no Cairo (aliás, me arrependi muito de não ter entrado num tour assim quando fui com minha irmã ao Marrocos).

 Então, resumindo: dá para ir ao Egito agora? Sim, sim, sim. O país é tão genial e fascinante quanto as aulas de História sempre nos mostraram, os egípcios são amistosos e, mais do que nunca, eles PRECISAM de turistas agora. O país vive majoritariamente disso e estão todos, comerciantes, guias e empresas do ramo turístico, perdendo muito com toda essa situação.

  Viajar ao Egito com uma operadora acho recomendável, para nos dar a confortável sensação de segurança todo o tempo – no meu caso, só tenho elogios à Abercrombie e a todos da equipe que me atenderam em diferentes pontos do país (com menção especial aos dedicados Mahmoud e Sayed, que me cobriram de atenções, e ainda falam português).

Ir agorinha ainda trará o maravilhoso benefício adicional de belíssimas hospedagens e grande serviço muito mais baratos e as atrações vazias, tranquilas, com aquele jeitinho de “só suas” nas fotos – inclusive nas pirâmides 😉

P.S.1: as viagens longas por terra me foram desaconselhadas nesse momento, então tirei do roteiro que eu originalmente queria fazer Alexandria e a península do Sinai. Mas acabei me arrependendo porque encontrei vários turistas que tinham ido à Alexandria super tranquilamente e amaram a cidade. De qualquer maneira, viajantes independentes estão sendo constantemente aconselhados, no país todo, a se juntarem a tours em grupo (mesmo que somente day tours e não necessariamente pacotes/excursões) por enquanto.

P.S.2: sorry pela proporção farônica do tamanho desse post 😛

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About the author

Mari Campos é jornalista formada e especializada em turismo e lifestyle de luxo, e colabora exclusiva e regularmente como freelancer há mais de treze anos com textos e fotos sobre o tema para portais, revistas e jornais no Brasil e em outros oito países. O conteúdo deste post foi elaborado e decidido pela autora tendo como único critério a relevância do assunto para os leitores do MariCampos.com. A menos que esteja escrito explicitamente "post patrocinado" em letras maiúsculas no início do texto do post, não há qualquer tipo de vínculo ou parceria comercial/editorial com as empresas, estabelecimentos e/ou serviços citados no texto nem qualquer tipo de remuneração pelo mesmo.