Tren Crucero Equador

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Como foi a linda viagem de quatro dias de Quito a Guayaquil cruzando os Andes até a costa equatoriana à bordo de um trem

 

 

DSC_0005 (2) Sempre gostei de viajar em trem.  Gosto infinitas vezes mais que viajar em carro ou avião, por N motivos (que poderiam até render um outros textinho 😛 ). Por isso mesmo fiquei encantada com a ideia do novo Tren Crucero que começou a operar na metade deste 2013 no Equador e resolvi esticar a ida ao país para uma viagem a trabalho a Galápagos com este roteiro.

A partida em Quito - all on board!

A partida em Quito – all on board!

O badalar do sino de metal na plataforma da estação Chimbacalle, em Quito, anunciou que devíamos todos embarcar, que o trem estava por partir. Eu, que viajava sozinha, tinha ficado tranquilamente tirando fotos do antigo trem já que funcionários tinham se encarregado das bagagens (que, curiosamente, seguem os passageiros sempre em ônibus e nunca no trem).

O trem do primeiro dia, bem mais simples, não era  o Tren Crucero Equador propriamente dito

O trem do primeiro dia, bem mais simples, não era o Tren Crucero propriamente dito

Entrei e achei o trem bem menos bonito do que parecia no material publicitário, mas as guias do passeio – as adoráveis Isabel e Gabi – logo explicaram que neste primeiro dia não viajaríamos no Tren Crucero exatamente e sim num dos trens antigos originais – o vagão em que eu me encontrava, por exemplo, todo em madeira, costumava ser o vagão do diretor da ferrovia décadas atrás. Foi só no dia seguinte que conhecemos o novo trem, lindinho que só, e que foi onde viajamos até o final do itinerário.

Tren Crucero Equador Tren Crucero Equador

Um chocolatinho ou docinho a cada vez que voltávamos para o trem

Um chocolatinho ou docinho a cada vez que voltávamos para o trem

 

O Tren Crucero começou a operar em junho passado depois de investimentos de mais de 280 milhões de dólares para a reabilitação (processo ainda não concluído 100%, por sinal) dos 456km de linha férrea equatoriana que atravessa o país de Quito a Guayaquil (iniciada no final do século XIX e em grande parte construída com mão de obra baratíssima jamaicana) . A ideia é ambiciosa: criar um novo produto turístico de custo elevado que ligue as duas principais cidades do Equador atravessando os Andes até chegar à costa.

Tren Crucero Equador

Por enquanto, motoqueiros zelam pela segurança a cada cruzamento

Por enquanto, motoqueiros zelam pela segurança a cada cruzamento

 

Tren Crucero Equador

O novo trem é uma iniciativa conjunta com o Governo Federal equatoriano, que quer promover o turismo nessa rota ainda pouco (ou, em alguns lugares, nada) explorada turisticamente – em algumas cidadezinhas éramos nós, os passageiros, a grande atração. Os trabalhos na linha férrea ainda não foram 100% concluídos – por isso o primeiro dia de viagem de quem faz Quito-Guayaquil, ou o último de quem faz o sentido inverso, ainda não acontece no novo trem – mas acredita-se que até o final de 2014 os passageiros façam mesmo 100% da viagem na nova máquina. E, enquanto o povo ainda não está acostumado com a reabilitação da linha férrea, motociclistas acompanham o trem durante toda a viagem para zelar pela segurança nos cruzamentos da ferrovia com ruas ou estradas.

A equipe técnica do trem posa toda orgulhosa

A equipe técnica do trem posa toda orgulhosa

 

São dois vagões para passageiros...

São dois vagões para passageiros…

 

...com serviço super atencioso à bordo

…com serviço super atencioso à bordo

Tren Crucero Equador Tren Crucero Equador A viagem dura 4 (lindos) dias com deslocamentos em trem e ônibus – mas todas as noites se para em uma cidade para dormir, e não à bordo do trem. As paradas para acomodação são bastante simples (são “haciendas” equatorianas e, ao menos na configuração atual, vão em nível decrescente de qualidade da primeira à última noite, na minha opinião) mas o roteiro tenta compensar isso durante os deslocamentos no trem.

Tren Crucero Equador Tren Crucero Equador

São quatro vagões que compõem o novo trem para apenas 54 passageiros: dois deles levam mesas e cadeiras cujos assentos são pré-determinados na nossa passagem, com lockers para deixarmos nossos pertences de valor durante a viagem e grandes janelas panorâmicas  (e cada um deles tem uma decoração diferente);  um terceiro é o vagão-bar (snacks, bebidas não alcoólicas e cafés estão incluídos durante todo o trajeto em trem), que conta também com uma lojinha e um living; o quarto é dividido em uma área social coberta e uma disputadíssima área aberta, a “terraza”, onde passei a maior parte da viagem na companhia de outros viajantes ávidos por boas imagens da paisagem. E é todo cheio de detalhes, como as flores da decoração que mudavam conforme a parte do país que atravessávamos.

O vagão social...

O vagão social…

 

...o vagão-bar...

…o vagão-bar…

 

... e a terraza sempre concorrida.

… e a terraza sempre concorrida.

Interessantíssimo acompanhar a mudança de paisagem ao longo da travessia desde os bosques nublados até a costa tropical, passando, é claro, pela mítica “avenida dos vulcões”, onde mais de 10 deles (sendo um o Tungurahua, ainda ativo) se enfileiram. Enquanto estávamos a bordo do trem, o staff (fofo!) nos mimava com bebidas e lanchinhos tipicamente equatorianos, incluindo até a tradicionalíssima colada morada, e as guias iam dando informações pertinentes aos lugares que atravessávamos pelo sistema de som.  Ao desembarcarmos, éramos sempre acompanhados da equipe de guias bilíngues (oficialmente inglês e espanhol, mas vi também as guias falando em alemão e francês com alguns passageiros) durante os passeios.

Lanchinhos cheios de bossa...

Lanchinhos cheios de bossa…

 

... pra todo apreciar a paisagem com conforto

… pra todo mundo apreciar a paisagem com conforto

No nosso programa de passeios ao longo desses quatro dias, visitamos mercados indígenas, museus, comunidades e parques nacionais, como o Cotopaxi, onde fica o vulcão homônimo. Conhecemos ONGs (como a Inti Sisa, que cuida da preservação de comunidades locais),  cidades comercialmente importantes (como Ambato, a porta de entrada para a Amazônia equatoriana), centros de cultivo e exportação das valorizadas rosas equatorianas (como a interessante Nevado), plantações de cacau, povoados interessantes (como Colta, onde fica a 1a. igreja católica do país e segunda da América do Sul) personagens curiosíssimos (como o senhor Baltazar Ushca, cujo “trabalho” é trazer gelo do glaciar Chimborazo duas vezes por semana para seu vilarejo) e margeamos constantemente o rio Alauisi, que chegou a deixar a ferrovia submersa em 1998 durante uma violenta manifestação do El Niño.

Tren Crucero Equador

Seu Balthazar e a filha exibem orgulhosos "pedaços" do glaciar :/

Seu Balthazar e a filha exibem orgulhosos “pedaços” do glaciar :/

 Chá com simpatia nas paradinhas

Chá com simpatia nas paradinhas

Tren Crucero Equador Tren Crucero Equador Tren Crucero Equador

O Cotopaxi escondido, lá no fundo

O Cotopaxi escondido, lá no fundo

Em termos de experiência, considero como ponto alto da viagem a manhã que passamos no sen-sa-ci-o-nal mercado de Guamote, um vilarejo de 5 mil pessoas onde ainda rola escambo (de verdade) de produção agrícola. Como cenário, a sensacional paisagem vista do trem enquanto os vagões beiram o desfiladeiro da sinuosa rota conhecida como “la Nariz del Diablo”, na travessia final dos Andes, antes de alcançar a costa – este trecho era tão temido antigamente pelo perigo que suas curvas traziam que fez com que o sistema ferroviário equatoriano fosse conhecido como o mais difícil do mundo.

O sensacional mercado de Guamote

O sensacional mercado de Guamote

 

Tren Crucero Equador

O sr. Nelson Porras, rei da simpatia....

O sr. Nelson Porras, rei da simpatia….

 

... a Maria-Fumaça que o enche de orgulho

… a Maria-Fumaça que o enche de orgulho

E, como pitoresco, há que se contar que dois trechos do trajeto completo são feitos, veja só, com uma locomotiva a vapor do começo do século XX. A locomotiva original de número 53 é conectada e desconectada do trem em frente aos passageiros, de modo que todos possam acompanhar o curioso (e meticuloso) processo – enquanto o simpático condutor aposentado Nelson Porras (i-gual-zi-nho ao Super Mario, né, não? 😛 ) conta empolgado aos passageiros das mudanças pós-restauração da máquina (que agora opera com diesel, é claro).

E a ferrovia passa pelos mais distintos lugares, de maneira impressionante, de mais de 3mil metros de altitude até o nível do mar.

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A viagem no trem cruzeiro, que ainda tem preço de saída desde US$990 (suplemento single de US$97) para o trajeto completo Quito-Guayaquil (ou inverso) inclui todos os deslocamentos, alojamentos, refeições e excursões. Também é possível fazer a viagem apenas por trechos (1 dia, 2 dias ou 3 dias) e os valores estão aqui. Localmente, é a operadora Metropolitan Touring quem comercializa o trem (dá pra reservar também a viagem completa com eles).

Recomendo muito que, assim como eu fiz, e para que a experiência equatoriana fique bem redondinha, quem se interessar por esse roteiro, fique ao menos duas noites antes em Quito (repeti a dose no a-do-rá-vel hotel boutique Casa Gangotena – dá pra ler o que eu achei do hotel aqui) antes do início da viagem e ao menos uma noite em Guayaquil ao final (me hospedei no ótimo Oro Verde Hotel, hoje parte da Leading Hotels).

Esperando o trem passar ;)

Esperando o trem passar 😉

Tren Crucero Equador Tren Crucero Equador O melhor da viagem, na minha opinião, além das paisagens impressionantes que nos acompanham durante quase todos os trajetos, é a possibilidade que o trem nos dá de chegar a cidadezinhas e lugares às quais um turista comum não chegaria sem ele e todo o contato que nos proporciona com a gente local, dos trabalhadores do campo que sempre acenavam sorridentes para o trem que passava aos moradores com os quais pude conversar em povoados pequenos, mercados e num assentamento indígena.  Gostei muito. E, ó: bela viagem para quem viaja sozinho também – o grupo se entrosa super bem (éramos 10 nacionalidades diferentes envolvidas) nos passeios e no próprio trem, as refeições são sempre coletivas (inclusive as mesas para café da manhã) e eu ainda encontrei umas senhorinhas equatorianas fofíssimas que praticamente me adotaram durante a viagem 🙂

Conselho que me deram e eu repasso a vocês: a rota Quito-Guayaquil é fisicamente menos dura (vamos do frio ao calor, das grandes altitudes à costa) e turisticamente mais interessante (a visita ao mercado de Guamote, por exemplo, não existe no roteiro inverso) que a rota Guayaquil-Quito.

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About the author

Mari Campos é jornalista formada e especializada em turismo e lifestyle de luxo, e colabora exclusiva e regularmente como freelancer há mais de treze anos com textos e fotos sobre o tema para portais, revistas e jornais no Brasil e em outros oito países. O conteúdo deste post foi elaborado e decidido pela autora tendo como único critério a relevância do assunto para os leitores do MariCampos.com. A menos que esteja escrito explicitamente "post patrocinado" em letras maiúsculas no início do texto do post, não há qualquer tipo de vínculo ou parceria comercial/editorial com as empresas, estabelecimentos e/ou serviços citados no texto nem qualquer tipo de remuneração pelo mesmo.